A irritabilidade que virou rotina raramente é só questão de temperamento. Muitas vezes, é o primeiro sinal de que algo por dentro está pedindo atenção.
Sou o Dr. Otávio Augusto, trespontano, médico pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein e fundador da SANVIT. Hoje vamos falar de algo que quase ninguém leva ao consultório como queixa principal, mas que aparece todos os dias dentro de casa, no trabalho e no trânsito: o pavio curto.
Quem vive irritado raramente está com raiva do mundo. Está sobrecarregado por dentro.
A explosão que ninguém planejou
Um comentário bobo, um barulho repetido, uma pergunta feita na hora errada. E você responde mais áspero do que queria, num tom que nem reconhece como seu. O detalhe que mais dói é com quem isso acontece: quase sempre com quem menos merece. O filho, a esposa, a mãe, o colega que só estava tentando ajudar.
Depois que a poeira baixa, vem a segunda parte do ciclo: a culpa. Passada a explosão, sobra o arrependimento e aquela sensação estranha de não se reconhecer. “Eu não era assim.” Esse ciclo, repetido semana após semana, desgasta as relações que mais importam. O Marcos, 43 anos, conhece bem essa rotina. Ele acorda já sem paciência, antes mesmo do dia começar. No trânsito, buzina. No trabalho, responde curto. Em casa, estoura com a filha por causa do volume da televisão e, meia hora depois, vai ao quarto dela pedir desculpa. Ele jura que
vai se controlar. E jura de novo na semana seguinte.
Não é falta de educação. É sinal.
Irritabilidade raramente é só temperamento. Muitas vezes, ela é a ponta visível de estresse acumulado, ansiedade ou até depressão, condições que deixam o sistema nervoso em estado de alerta constante. Com o cérebro sobrecarregado, a tolerância despenca e qualquer estímulo vira gatilho.
Nos homens, esse detalhe é ainda mais importante: a depressão masculina, com frequência, aparece primeiro como irritação, e não como tristeza. Some a isso noites mal dormidas, café demais e nenhuma pausa real, e o resultado é alguém vivendo no limite. Viver assim cobra um preço do corpo e da mente.
O que NÃO funciona:
· Engolir tudo e fingir que está bem até a próxima explosão
· Contar até dez todos os dias enquanto a causa continua intocada
· Descontar em quem está perto e compensar com pedidos de desculpa
· Apostar apenas na força de vontade para “mudar o gênio”
O que funciona:
· Entender que irritabilidade persistente é sinal de saúde mental, não defeito de caráter
· Observar o padrão: em que horários, com quem e em quais situações você estoura
· Cuidar do básico que sustenta a paciência: sono, alimentação, pausas e movimento
· Buscar avaliação profissional para investigar e tratar a causa, não só o sintoma
Quando a paciência volta
Tratar a causa da irritabilidade devolve algo que não tem preço: a convivência leve com as
pessoas que você ama. A boa notícia é que dá para sair desse ciclo. Com avaliação cuidadosa e
um plano feito sob medida, o corpo desacelera, o sono melhora e aquele estopim que vivia aceso
vai, aos poucos, se apagando.
Se você se reconheceu nessas linhas, não espere a próxima explosão. Pavio curto não é o seu
jeito. É um recado. E recado bom é aquele que a gente escuta a tempo.
Dr. Otávio Augusto · CRM-MG 108485
Médico pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein · Fundador da SANVIT
SANVIT. Na casa rosa, em Três Pontas.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por
um profissional de saúde.
