Crise de ansiedade ou ataque de pânico? Não é a mesma coisa

 

 

Confundir os dois custa tempo de tratamento, dinheiro e qualidade de vida. A diferença muda tudo.

 

Olá! Sou Dr. Otávio Augusto, mas pode me chamar de Dr. Ota. Trespontano, médico pós-graduado em Psiquiatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein e fundador da SANVIT. Hoje vim te contar de duas coisas que parecem iguais por fora, são tratadas como iguais no balcão da farmácia, e não são iguais.

Existe um tipo de crise que vem do nada, sem aviso, e te faz achar que vai morrer. E existe outro tipo, parecido na sensação, mas com origem completamente diferente. Misturar os dois é o erro mais comum que eu vejo no consultório.

Vamos começar pelo básico: crise de ansiedade e ataque de pânico não são a mesma coisa. Os sintomas se parecem (coração disparado, falta de ar, tontura, formigamento, sensação de que algo terrível vai acontecer), e é exatamente por isso que tantas pessoas tomam o remédio errado por anos.

A crise de ansiedade tem gatilho. Algo aconteceu antes: uma cobrança no trabalho, uma briga em casa, uma conta vencida, um filho doente. O corpo respondeu com escalada. Sobe em alguns minutos, fica em platô, e desce devagar. Costuma durar de 20 minutos a algumas horas. É proporcional, mesmo que exagerada, à situação. Tem nome, tem causa, tem hora de começar.

O ataque de pânico é o oposto. Vem do nada. Sem gatilho identificável. Pico em até 10 minutos, e desaparece quase tão rápido quanto veio. A pessoa fica olhando pro próprio corpo sem entender o que aconteceu. Essa imprevisibilidade é a marca registrada. É o cérebro disparando alarme de incêndio sem incêndio nenhum.

Por dentro também muda. Na crise de ansiedade, cortisol e adrenalina sobem porque a cabeça antecipou algo. No pânico, o sistema de alarme do tronco encefálico dispara antes de qualquer pensamento consciente. Por isso o tratamento muda. Ansiolítico simples ajuda na crise de

ansiedade. Pânico precisa de outra abordagem, geralmente medicação contínua de outra classe e psicoterapia específica.

Pra reconhecer em alguém perto, ou em você:

A Maria, recepcionista, 34 anos, chega em casa e sente o peito apertar depois do dia inteiro engolindo cliente mal-educado. Respira fundo, deita, e em meia hora passa. Toda vez tem uma razão por trás. Crise de ansiedade.

O João, comerciante, 41 anos, tá dirigindo de manhã ouvindo rádio e do nada o coração dispara, a vista embaça, ele encosta o carro com medo de morrer. Cinco minutos depois passa. Não consegue explicar pra esposa o que sentiu. Ataque de pânico.

A Letícia, 27 anos, vive entrando em crise em lugares cheios (mercado, fila de banco, restaurante movimentado), e fora desses ambientes está bem. Aqui entra uma pergunta que talvez nenhum médico já tenha te feito: e se essa “ansiedade” não for ansiedade pura? Pessoas com TDAH não diagnosticado vivem em estado de alerta constante porque o cérebro delas processa o ambiente sem filtro. Absorvem som, luz, conversa, movimento, tudo ao mesmo tempo. O corpo entende isso como ameaça e dispara o que parece ansiedade. A pessoa trata como ansiedade durante anos, e nada resolve, porque a raiz não é ansiosa, é atencional. Não estou dizendo que é o caso da Letícia, nem o seu. Estou dizendo que vale considerar.

O que NÃO funciona:

  • Tomar o ansiolítico do parente “porque parece a mesma coisa”
  • Esperar passar e fingir que não aconteceu
  • Diagnosticar pelo TikTok ou pelo grupo do WhatsApp
  • Cortar café achando que resolve tudo (ajuda, mas não trata)

O que funciona:

  • Anotar cada episódio: hora, lugar, o que aconteceu antes, quanto durou. Em duas semanas, você (e quem te atende) consegue ver padrão.
  • Praticar respiração lenta com expiração mais longa que a inspiração: inspira 4 segundos, segura 4, expira 6. Dois minutos. Ativa o freio biológico do corpo.
  • Procurar avaliação se as crises se repetem, ou se aparecem do nada. Quanto mais cedo trata, menos a sua vida se reorganiza em volta delas.

Crise de ansiedade e ataque de pânico têm tratamento bom, comprovado, e geralmente rápido. O problema é o nome errado. Anos no remédio errado custam tempo, dinheiro e a sensação de que “comigo não funciona”. Funciona. Só precisa estar tratando a coisa certa.

Se você se identificou, ou conhece alguém que precisa, vem conversar. SANVIT, na casa rosa, em Três Pontas.

Dr. Otávio Augusto

CRM-MG 108485  ·  Psiquiatria

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica individualizada.


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