Violência doméstica e reconstrução emocional pautam encontro com Max Tovar, promovido pelos alunos de Direito da Fateps

 

Uma iniciativa dos alunos do terceiro período do curso de Direito da Fateps levou a Três Pontas, na manhã deste sábado (06), a xamã, psicóloga e terapeuta Max Tovar, referência nacional em desenvolvimento humano e autora do livro Musculatura da Alma. O encontro, realizado no Parque Municipal Vale do Sol, integrou um projeto extensionista voltado à conscientização sobre a violência doméstica e à construção de redes de apoio para vítimas.

Com mais de 40 anos de atuação nas áreas de desenvolvimento pessoal e equilíbrio físico, mental e espiritual, Max Tovar é fundadora do Instituto IMXT e idealizadora da Oficina do Ser. Ao longo da carreira, já atendeu personalidades como Thiaguinho, Angélica, Wanessa Camargo, Fernanda Souza e Ludmilla Dayer. Também ganhou projeção nacional ao conduzir um trabalho terapêutico com a cantora Anitta em Varginha.

Participaram da roda de conversa o professor, advogado e mestrando Paulo Roberto Teixeira, coordenador e orientador do projeto extensionista; a vereadora, presidente da Escola do Legislativo e procuradora da Mulher, Valéria Evangelista Oliveira; e o bacharel em Direito, diretor do Colégio Travessia e presidente da Câmara Municipal de Três Pontas, Myller Bueno de Andrade.

O debate não teve como foco leis, processos ou estatísticas, mas as histórias interrompidas pela violência e os caminhos para a reconstrução da autoestima, da esperança e da dignidade das vítimas.

O público foi recepcionado pelos universitários com música ambiente e um café da manhã preparado especialmente para o encontro. Sentados na grama do Parque Vale do Sol, muitos deles aproveitando os primeiros raios de sol para amenizar o frio da manhã, os participantes acompanharam atentamente as reflexões e debates, em um momento marcado pela troca de experiências, acolhimento e aprendizado.

Em entrevista à Equipe Positiva, Max Tovar falou sobre os impactos da violência doméstica, a importância das redes de apoio, o papel da família na formação das novas gerações e o lançamento de seu livro.

ENTREVISTA

“A porrada pode ser só uma vez, mas o resultado da violência dura muito mais tempo”, diz Max Tovar

Equipe Positiva: Qual a importância de discutir a violência doméstica em encontros como este?

Max Tovar: É um prazer estar aqui com esse grupo de estudantes debatendo um tema tão importante. Não basta apenas falar sobre violência. É preciso que existam ações efetivas, políticas públicas e redes de apoio capazes de acolher quem sofreu algum tipo de abuso. A violência pode acontecer em um único momento, mas as consequências permanecem por muito tempo. A agressão termina, mas o impacto emocional continua. Por isso são tão importantes a informação, o diálogo e as alternativas para que essas pessoas possam reconstruir suas vidas. Estou aqui justamente para colaborar com esse processo.

Equipe Positiva: Muitas vezes o ferimento emocional é maior do que o físico?

Max Tovar: Exatamente. A dor não acontece apenas no momento da agressão. Ela continua acontecendo depois. Esse é o lugar mais difícil que muitas vítimas enfrentam. Quando a confiança e o respeito são quebrados, é como uma xícara que se estilhaça. O grande desafio é reunir os pedaços. Muitas pessoas passam a vida se sentindo imperfeitas, erradas, rejeitadas ou até culpadas pelo que sofreram. Quem passa por uma situação de violência frequentemente acredita, em algum momento, que mereceu aquilo ou que teve alguma responsabilidade pelo ocorrido. Por isso, é fundamental encontrar apoio, coragem e um ambiente seguro para começar a reconstrução. Gosto muito da técnica japonesa que recupera porcelanas quebradas utilizando fios de ouro. Essa imagem representa muito bem o processo de cura. É possível reconstruir-se de forma digna, honrada e até mais forte do que antes da violência.

Equipe Positiva: Depois da pandemia houve redução ou aumento dos casos de violência contra a mulher?

Max Tovar: É difícil falar sobre números sem ter acesso às estatísticas. O que escuto de profissionais que atuam diretamente nessa área é que os registros continuam crescendo. Por outro lado, também vemos mais mulheres denunciando e buscando seus direitos. A violência contra a mulher é resultado de uma construção histórica muito antiga. Estamos falando de séculos de comportamentos institucionalizados que precisam ser interrompidos. A luta continua porque muitos dos direitos que temos hoje foram conquistados por mulheres que vieram antes de nós. Ainda há muito a ser feito.

Equipe Positiva: Como deve ser o acompanhamento de uma vítima de violência doméstica, principalmente quando o agressor é alguém da própria família?

Max Tovar: Existem muitos sentimentos envolvidos: vergonha, medo, tristeza, decepção e insegurança. Cada pessoa tem uma história de vida diferente, e muitas vezes há feridas emocionais anteriores que influenciam na forma como ela lida com a violência. É preciso oferecer acolhimento e segurança para que a vítima consiga reconhecer sua própria força. Em muitos casos, aquela situação atual é apenas a repetição de padrões antigos que acompanharam a pessoa ao longo da vida. Quando ela consegue se desidentificar desse lugar de sofrimento, encontra espaço para reconstruir sua história. Não é um processo fácil, mas é possível.

“Reconstruir os cacos é o grande desafio das vítimas de violência” – Max Tovar

Equipe Positiva: A tecnologia aproxima ou afasta as pessoas?

Max Tovar: Estamos vivendo uma experiência inédita na história da humanidade. A tecnologia trouxe facilidades extraordinárias. Hoje conseguimos conversar com alguém que está do outro lado do mundo em segundos. Mas ela também trouxe desafios para os relacionamentos humanos. Antes, as pessoas se encontravam na praça; hoje, muitas vezes, a praça é digital. O problema não está na tecnologia, mas na forma como a utilizamos. O que me preocupa é a qualidade humana de quem está por trás dessa ferramenta. Precisamos continuar desenvolvendo empatia, afeto, presença e capacidade de criar vínculos verdadeiros. A tecnologia deve servir ao ser humano, e não substituir a experiência humana.

Equipe Positiva: Fale um pouco sobre seu trabalho e sobre o livro Musculatura da Alma.

Max Tovar: Estou há 40 anos trabalhando com desenvolvimento pessoal. Meu trabalho busca ajudar as pessoas a compreenderem as memórias e condicionamentos que carregam do passado para que possam assumir o protagonismo da própria vida. O livro Musculatura da Alma fala justamente sobre isso. Muitas pessoas tomam decisões importantes, mas desistem no caminho. A transformação exige constância. É fácil decidir mudar de vida na segunda-feira; difícil é sustentar essa decisão durante meses ou anos. Quando alguém decide se libertar de dores, abusos ou traumas, precisa reafirmar diariamente esse compromisso consigo mesma. A cura não acontece pela força ou pela violência. Ela acontece por meio do amor e da constância. Amor e constância são os pilares da transformação pessoal.

Equipe Positiva: A violência contra a mulher também passa pela educação dos homens?

Max Tovar: Sem dúvida. Essa mudança começa dentro de casa. Durante muito tempo, os homens foram ensinados a reprimir sentimentos e a associar sensibilidade à fraqueza. Esse modelo precisa ser transformado. É necessário educar os meninos no respeito às mulheres, na empatia e no reconhecimento das emoções. Talvez eu não veja todas as mudanças que desejo durante a minha vida, mas elas precisam começar agora. Cada família tem um papel importante nesse processo.

Equipe Positiva: Os pais estão transferindo para a escola responsabilidades que deveriam ser da família?

Max Tovar: A escola exerce uma função fundamental, mas a formação começa em casa. Gosto de imaginar a escola como um espaço onde chegam crianças de diferentes origens, cada uma trazendo aquilo que aprendeu dentro da própria família. A escola pode ensinar conhecimento e convivência, mas os exemplos mais importantes são observados no cotidiano familiar. O respeito, a empatia e a valorização das diferenças precisam ser vividos dentro de casa. A educação do futuro deve reconhecer a diversidade de cada indivíduo e estimular relações mais humanas e saudáveis.


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